Ouvi outro dia de um amigo superantenado que a próxima geração consumidora de música na internet prezará pelo acesso, em contraponto à turma trintona que começou os trabalhos na época do Napster e ainda dá valor à posse. O embate, bastante pertinente em épocas de streaming vs. download, resume bem as mudanças pelas quais vem passando a forma como se escuta música na rede.
A famosa "nuvem", que permite aos usuários ter centenas de gigabytes de canções sem precisar ocupar espaço no seu HD, vem popularizando sites como Spotify, Rdio, e Grooveshark. Em comum, eles oferecem a possibilidade de escutar milhões de canções em streaming e apontam para um possivelmente bem-sucedido modelo de negócio musical, como explica a pesquisadora Paula Martini, do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
- A tendência é a música se tornar um serviço em vez de um produto. O produto era apenas o suporte físico, e ele está decaindo - explica Paula, que lidera um dos projetos de pesquisa do CTS.
Embora seja lindo na teoria, ainda há entraves legais para toda essa mudança ser, de fato, concreta. Mas a tentativa de adequação destes sites às leis de direito autoral mostra um caminho possível para oferecer música gratuita sem prejudicar os artistas.
O Spotify, por exemplo, só funciona em sete países da Europa. Segundo Pedro Mizukami, especialista em direito autoral e também pesquisador do CTS, isso acontece porque as gravadoras negociam licenciamentos territoriais, ou seja, condicionados ao local onde está o usuário. Dá-se o mesmo com o Rdio, lançado há pouco mais de um mês nos EUA e disponível apenas por lá.
Já o Grooveshark, que tem usuários em todo o mundo, usa outro tipo de operação: não tem contrato com gravadoras e se ampara na DMCA, a Lei dos Direitos Autorais do Milênio Digital. Mizukami explica:
- A DMCA é uma lei americana específica para a internet. A lógica é a mesma do YouTube - o usuário sobe o conteúdo e, caso o detentor do direito autoral ache que há violação, pede para a música ser retirada.
Vice-presidente de assuntos internacionais do Grooveshark, Carlos Perez explica que há negociação constante com as gravadoras para manter o site legalizado. Para ele, os artistas vão se beneficiar com o modelo:
- Acreditamos que, no futuro, a maior parte dos ouvintes de música o fará por streaming. E, graças a isso, os artistas distribuirão suas canções facilmente. No próprio Grooveshark temos ferramentas bacanas para as bandas monitorarem as estatísticas relacionadas a suas músicas.
E se a internet muda a forma de ouvir música, o que dizer da relação entre fãs e artistas? O cantor Leoni é um dos que mais tiram proveito da rede. A história começou em 2003, quando ele entrou numa comunidade do Orkut dedicada a seu trabalho e viu saltar de 50 para 50 mil o número de integrantes.
Atualmente, Leoni tem o mesmo número de usuários registrados em seu site oficial e já até promoveu concursos para que fãs musicassem letras suas. Além de conversarem com o cantor, eles dão pitaco no repertório dos shows e baixam as músicas novas que ele oferece gratuitamente na página.
- É um canal que não existia. A gente só falava para o público e ele não falava de volta - explica o cantor. - Eu tenho tido muita resposta nos shows, que têm sido mais constantes e cheios.